Meu primeiro trabalho 1/3

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Liberdade pertence àqueles que possuem coragem para defendê-la.

Péricles

Desde pequena aprendi a respeitar as divindades e com meus pais não foi diferente. Mater repousa em solo pátrio entre duas oliveiras ao lado da nossa antiga casa. Em sua lápide está escrito:  “Aqui repousa Kallíope. Que a terra te seja leve!”.  Já pater descansa no solo sagrado de Maratona (Batalha de Maratona – 490 a.C.) , onde os bravos guerreiros que ali perderam suas vidas contra os medos (Tribo ariana pertencente ao Império Aquemênida) foram enterrados. Na tumba onde residem os plateanos está escrito numa lápide: “Lutando na linha de frente dos gregos, os plateanos em Maratona derrubaram o exército dos medos dourados.”. Levava e ainda levo o repasto fúnebre à mater em Plateias e em todos os anos vou em procissão a Maratona em Μεταγειτνιών (Metagitnion – Agosto pelo calendário Ático), costume que levarei com meus ossos quando me juntar aos meus ancestrais.

No ano da batalha de Plateias (Batalha de Plateias – 479 a.C.) eu tinha onze anos de idade e seria a primeira vez que participaria da procissão anual até a Ática. Liderados pelos magistrados e pelo grande herói de meu povo, Arimnestos, mais uma vez fomos honrar nossos ancestrais. Após um dia de viagem chegamos no local da batalha e encontramos os Atenienses liderados por Aristides, o justo, Címon filho de Miltíades e Temístocles, herói em Salamina um ano antes.
Após cumprimentos de ambas as partes Aristides toma a palavra:

– Ateniense! Plateanos! Saudações a todos! Não há como não se emocionar ao olhar para esta planície e relembrar a batalha que aqui tivemos contra os medos. Se uma oráculo me dissesse que obteríamos a vitória, me custaria a acreditar. Confesso que em meu íntimo a dúvida sobre aceitar ou não a luta me era titânica, mas o desejo de ver nosso mundo livre das mãos persas clamou mais forte em meu coração. Na tarde anterior tivemos uma estranha surpresa ao ver nossos escravos e soldados rasos expelindo alguns inimigos a pontapés e xingamentos. Curioso como o deboche daqueles que mal tinham onde caírem mortos amedrontaram soldados do maior exército de nossa era.
O finado Miltíades fora escolhido para ser o estratego do dia e deliberou lutar. Independente de nossas diferenças e de meu exílio nos anos seguintes, Temístocles, agradeço-o por ter respeitado a decisão da maioria mesmo que contrária a sua, afinal, assim é a nossa democracia. Na manhã fatídica o caos foi instaurado pelo bravo Arimnestos e seus conterrâneos ao iniciar um ataque surpresa ainda de madrugada.
Provamos naquele dia a força de nossa falange ante a desordem bárbara e como estratégia e coragem pode sim superar desvantagem numérica. Sem sua cavalaria Artafernes presenciou seus arqueiros caírem pelos flancos e com a força das tribos de Leontis e Antiochis lideradas por Temístocles e eu quebramos o centro do inimigo.
Em pouco tempo os sobreviventes corriam aos navios como crianças em busca da proteção materna. O fator crucial de nossa vitória foi a coragem que tivemos em não recuar ante a chuva de flechas imigas além da sensibilidade dos homens dos flancos ao auxiliar nosso centro ao invés de perseguir os fugitivos. Infelizmente não tivemos auxílio vindo de Esparta, mas somos eternamente gratos pelo povo de Plateias em nos confiar seus mil homens que sem dúvida fizeram sim a diferença.
Como em qualquer conflito tivemos baixas, como a de nosso eterno Calímaco, grande polemarco que repousa neste solo sagrado.
Porém o dano por nós causados supera em muito nossas perdas, uma vez que conseguimos fôlego para nos preparar de outras investidas das hordas do leste.
Enfim, como uma alma sem repasto é uma alma atormentada, que iniciemos as oferendas.

Após estas palavras o magistrados iniciaram os ritos. Assim como Odisseu quando invoca o adivinho Tirésias no mundo dos mortos, um carneiro fora sacrificado ao pé da tumba.
Numa cova pães foram depositados para saciar a fome dos mortos, vinho e água foram vertidos para mitigar-lhes a sede. Pude levar uma peça de roupa para ser enterrada, para que assim meu pai pudesse usá-la nos Elíseos de ventos sempre amenos e grama sempre verde. Finalizado o rito a maioria prepara o acampamento, pois haveria jogos fúnebres até o entardecer.

Enquanto isso fiquei inerte contemplando a tumba sem saber muito o que pensar, apenas com tristeza de mal saber quem eram aqueles que me deram vida. Nenhuma lembrança, nenhuma imagem, nenhum cheiro. Nada. Só depois de muito tempo consegui lidar bem com o fato de ser órfã. Só depois de me firmar na minha profissão, ao ceifar vidas sem conta fui entendendo que cada um de nós está longe de ser o motivo pelo qual os deuses criaram o mundo. Somos apenas uma gota no oceano e não há porque sentir alguma culpa. De repente uma sombra se projeta em minha frente e uma mão toca em meu ombro:

– Menina. Qual o seu nome? – Pergunta Arimnestos.

– Kassandra, senhor.

– Vi que depositaste uma bela roupa na tumba. Para quem é?

– Meu pai, senhor.

– Qual o seu nome?

– Xenocrates, senhor. Sou filha de Xenocrates e Kallíope.

– Kassandra filha de Xenocrates e Kallíope. Então é você. Grande Kassandra! Grande Xenocrates, eterno amigo de meu pai. Ainda lamento sua morte. Me recordo de nossa última conversa, era sobre você. Gostaria de que o conflito com os persas fosse terminado onze anos atrás, para assim poder voltar a ter uma vida tranquila e cuidar de ti e de sua mater. De todos nós, pouco mais de mil plateanos, tinha que estar Xenocrates entre nossas onze baixas?
Escute uma coisa garota, nunca deixe de vir aqui, nunca deixe de dar oferendas ao seus pais, nunca deixe que o fogo sagrado em tua casa se apague, caso contrário infortúnios aos montes você terá. Quando achar que estiver a ponto de enlouquecer faça uma consulta a uma oráculo, por mais vaga que possa ser sua resposta. Aprendi que não devemos esperar respostas dos deuses imortais, mas sim mais perguntas. Entendido?

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– Sim, senhor.

– Não. Você não entendeu, mas não tem importância, você ainda é uma criança.
Com quem está morando?

– Ácis e Galateia. Dizem que Ácis era muito amigo de meu pater e eu gosto dele.
Galateia é minha mater agora.

– São excelentes pessoas. Cuide deles quando estiverem velhos e ofereça-os sacrifícios quando se forem.

– Senhor?

– Sim?

– É verdade que o senhor é um grande guerreiro?

– Deveria ouvir Homero menina. Lá estão os verdadeiros guerreiros. Sou só alguém que luta para sobreviver e tentar ter uma vida amena, mas muitos obstáculos me foram colocados pelos deuses. Quando voltarmos a Plateias posso te contar como conheci Xenocrates.

– Senhor?

– Sim?

– É verdade que não poderei oferecer minhas oferendas quando adulta?

– Quem disse isso?

– Ácis.
Disse que irei me casar e que não vou poder vir aqui.

– Ácis é um bom homem, mas um pouco velho.
Não acredito que os deuses punirão aquele que desejar honrar seus ancestrais. Tem hora que as leis me enchem, mas você é criança, não entende dessas coisas, mas faça o que julgar ser bom.
Entendido?

– Não, senhor?

– Não?

– Não, sou uma criança como você falou.

– Ah! ah! ah! você é esperta.

– Venha, vamos comer. Gostaria de te apresentar à algumas pessoas, amigos do seu finado pater.

Engraçado relembrar que tive a oportunidade de ver e ouvir célebres pessoas como Aristides, Címon e Temístocles e na época estar pouco me importando pois não sabia a importância dessas pessoas.  Estava mais preocupada em comer carneiro e tentar beliscar uma caneca de vinho.

À tarde tivemos competições atléticas e me fascinei.
Nunca havia presenciado alguma e como era uma criança não haveria problema em assistir.
Primeiro uma corrida a pé, normalmente seiscentos pés de distância (Aproximadamento 180 metros). Fazia algum tempo que não chovia na região e já na largada uma núvem de poeira tomou conta do lugar. Aqueles homens pareciam cavalos correndo, tinham levado uma brincadeira de criança a um outro nível.  O ateniense Elpís fora o vencedor e era fácil saber por que, era alto e magro, suas canelas pareciam duas varetas secas.

O pugilato me assustou, confesso. Já fiz muito pior do que dar um soco na cara de alguém, mas quando se tem onze anos é algo estranho de ser ver. Até o semblante de quem assiste é diferente, a torcida é mais viceral do que numa competição de arremesso de discos, como se estivessem entorpecidos por ópio. A luta final ficou por conta de Isidóros, meu conterrâneo, e Zenão de Atenas. Como em qualquer luta, só termina quando alguém apaga ou admite a derrota. Para a infelicidade do ateniense havia uma pedra no meio do caminho.  Um tropeço durante a esquiva de um cruzado de direita foi o suficiente para que Isidóros o finalizasse. O último dos três golpes foi bem no nariz e um rio de sangue começou a jorrar pelo chão. Chocante.

Timandros, filho de Menandros foi o vencedor no lançamento de dardos.
Parecia que estava brincando com os outros, sempre aumentando a distância de pouco em pouco. Na disputa final com Idomeneus, um homem de estatura mediana porém forte, o primeiro tiro foi de duzentos e oitenta pés. Assustado, Idomeneus lançou seu dardo clamando pela ajuda dos imortais e deu certo. Duzentos e oitenta e dois pés. Timandros acerta duzentos e oitenta e quatro. Idomeneus, duzentos e oitenta e cinco. A cada tiro a plateia delirava. Duzentos e oitenta e seis acerta Idomeneus, assim como Timandros. Com cara de quem quer parar de brincar, Timandros toma mais distância do que antes. Sua postura muda. Com a testa franzida ele olha para o céu, pronuncia algumas preces e então inicia o trote. Uma verdadeira estátua viva, seu braço esquerdo à frente do corpo, o direito atrás totalmente esticado segurando o dardo. Olhando apenas para frente ele corre com o corpo de lado, como um corcel num galope. No momento do tiro seu pé esquerdo crava no chão e seu tronco gira de forma veloz dando o impulso necessário para o lançamento. Uma trajetória perfeita.
Trezentos pés.
A incredulidade foi tanta que ninguém gritou, apenas o som do dardo ao fincar no chão foi ouvido.
Após a contagem todos aplaudem, inclusive Idomeneus.
O ateniense conseguiu a marca de trezentos pés (Aproximadamente 90 metros).
Na sua frustrada tentativa Idomeneus demonstrou cansaço e atingiu apenas duzentos e setenta pés. Glória à Timandros.

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Encantada com os jogos fiquei brincando com as outras crianças que também estavam a honrar seus parentes. Uma estaca velha no chão nos serviu como dardo e assim brincamos até o anoitecer. No dia seguinte em marcha de volta à Plateias Arimnestos veio ao meu encontro:

– Kassandra.

– Senhor?

– Te vi ontem brincando com as outras crianças. Você costuma caçar lebres?

– Não, senhor.

– Então você tem talento. Não só arremessou aquela estaca quebrada para bem longe como executou o movimento com maestria.

– Fiquei observando Timandros, senhor. Tentei imitá-lo.

– E conseguiu fazê-lo bem. Se quiser posso falar com Ácis para te levar à Élida para a Heraia.

– Heraia?

– O festival esportivo que ocorre em Olímpia, exclusivo para mulheres. Você está quase na idade de poder participar e tem potencial.

– Ácis não deixaria, senhor. Devo ficar em casa.

– Ácis é cabeça dura, falo com ele. Você já teve a desgraça de perder os pais, não merece viver trancada numa casa.

– Senhor?

– Sim?

– O senhor viaja bastante?

– Mais fácil falar onde não coloquei meus pés. Se quiser ouvir uma boa história vá à minha casa amanhã, estou aproveitando o tempo livre para contar histórias a quem quiser ouvi-las.
Posso contar como foi a batalha de Lade (Batalha de Lade – 494 a.C.).

– Lade? Onde fica?

– Perto de Éfeso, na Anatólia, a leste do Egeu.

– Tão longe?

– Muito longe.

– Por que o senhor foi para lá?

– Esta é uma longa história de uma longa guerra.
Escute menina, tenho muita consideração pelo teu pater e sinto que tenho um débito aberto com ele. Ele me salvou quando ainda era jovem e gostaria de retribuir.
Se precisar de algo e eu puder ajudar, me procure.

– Senhor?

– Sim?

– Posso ser como o senhor?

– Como assim?

– Viajar e conhecer lugares.

– Se estiver disposta a renunciar tua inocência e sujar suas mãos de sangue, talvez. Sim, você não entendeu, mas não há problema nisso. Aproveite enquanto és criança, pois irá sentir saudades. Uma vez conheci um senhor em Éfeso que dizia que não se pode pisar duas vezes num rio, pois nunca a água será a mesma, nem mesmo a pessoa que assim o faz. Guarde isso menina. Bem, você disse que gostaria de conhecer lugares, não é mesmo? Você já viajou para algum lugar?

– Não, senhor. O máximo que já caminhei foi até o santuário em nossa pólis.

– Estou indo à Atenas dentro de alguns dias. Gostaria de ir comigo?

– Sim, senhor. – Não pude conter a alegria ao ouvir tal proposta.

– Falarei com Ácis para ter sua permissão.

– Senhor?

– Sim?

– Como é Atenas?

– Essa é uma longa história. Te conto no caminho.

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