A portadora da Égide 4/4

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Não há nada pior depois de estar exausta do que ter que nadar em mar aberto, gelado e com armadura pesada. Meu dentes rangiam de frio, meu corpo todo tremia, sentia câimbras nas pernas e espasmos no braço esquerdo. Por entre corpos e destroços nadei em busca de algo para poder me sustentar e a confusão mental aumentava a cada braçada. Rezava a Poseidon para me poupar, “Hoje não, hoje não, te imploro grande Patros. De repente me deparo com uma embarcação. Inimiga? Aliada? Não sabia.
Com todas minhas forças comecei a subir pela popa. A chuva havia cessado mas o vento soprava forte e dificultava minha escalada. Ainda no parapeito pelo lado de fora notei pessoas estranhas e uma vela com o rosto de um touro. Navio errado. Havia escalado uma embarcação samia, mas a frente vejo o Cefalópode vindo de encontro para o combate. Se continuasse do lado de fora iria voltar ao mar na primeira colisão.

– Preparar para impacto! – Disse o capitão do navio.

Por sorte todos estavam olhando para frente ninguém havia me visto e num pulo entrei no convés e por trás apliquei um mata-leão no timoneiro, um homem pequeno, porém forte.
Com força o arrastei e o joguei ao mar sem que ninguém me visse pois todos estavam atentos para a iminente colisão. Ao voltar ao timão giro com toda força à estibordo para facilitar a colisão do Cefalópode no centro do casco. Todos se viram para trás e esse foi o momento em que eu mais tive certeza que iria morrer em toda minha vida. Pelo menos metade da tripulação estava prestes a me atacar com dardos, flechas e machados. Tão logo pulei pelo alçapão em direção aos remadores e tivemos a colisão que foi certeira pois a água subiu rápido e logo tive que voltar ao convés. Um machado jogado no chão foi minha arma nesse assalto e o cravei nas costas de um arqueiro pronto para dar um tiro. A arma não estava bem afiada e me serviria melhor se usada como uma maça e assim ataquei minha próxima vítima, mas se soubesse que quem estava prestes a morrer pela mão inimiga fosse Nikephoros, teria esperado um pouco mais.

Misthios! – Disse-me ele com espanto.

– Levante-se.

Estendi a mão para meu algoz e num tranco o levantei.

– Vá para o inferno! – Disse.

Dei uma rasteira com meu pé direito e com um jogo de corpo o derrubei ao mar. Sua última expressão foi de terror e em seguida afundou como uma pedra, sem reação. Corri para o Cefalópode ver como estava Isócrates quando de repente senti uma dor forte na nuca e apaguei.

Uma das sensações mais estranhas que alguém pode ter é acordar após um desmaio e minha primeira visão foram de gaivotas. Malditas gaivotas com seus gritos estridentes. Já era manhã do dia seguinte e estava deitada numa tenda já sem minha couraça e com dor no corpo todo. Me sentar para tomar um gole d’água me exigiu um esforço tão grande quanto nadar em mar aberto. Ao lado vejo uma bandeja com damascos secos, azeitonas, queijo e pão. Finda a refeição rápida escuto passos e um infeliz abre a tenda trazendo a luz do sol que me cega por um instante.

– Bom dia misthios.

– Quem é você?

– Está bem?

– Estou viva.

– Que bom. Quando estiver em condições vá ao navio. Capitão Diókles quer falar com você.
Tome, vista isso.

Ao me vestir com um peplo saí da tenda e compreendi a situação. Vitória. Num instante os olhares se voltaram para mim, uma sensação estranha. Alguns levantaram taças e com sorrisos gritavam meu nome.
Um deles me deu uma cheia de vinho puro e um espeto com carne de um carneiro recém assado. Ao subir no Cefalópode Demétrius veio ao meu encontro:

– Kassandra. Então esse é seu nome. Se um dia tiver uma filha esse será seu nome. Tome. Fique com minha adaga.

– O que está acontecendo?

– Vá falar com o capitão.

E assim fui ao encontro de Diókles.

– Capitão?

– Kassandra. Duvidei de você. Peço desculpas.

– Não estou entendendo.
Só me lembro de voltar ao Cefalópode e ter apagado.

– Você foi atingida por trás por um machado e veio a desmaiar aos pés do seu amigo ferreiro, que cuidou de você até chegarmos a praia. Te colocamos dentro do convés mas não perdeu muita coisa, a batalha já estava decidida naquele instante. Nos primeiros raios de sol os poucos navios samios sobreviventes recuaram e então voltamos à Tragía. Você prometeu ser responsável por metade das baixas desse navio e assim o fez, senão mais. Você incendiou um navio e a vi com meus próprios olhos virando o leme da nossa última vítima. Não sei como conseguiu invadir aquela embarcação, mas o importante é que você foi fundamental para a vitória em nosso flanco. Aquele trirreme havia conseguido escapar de nosso bloqueio e estava para nos atacar. Conseguimos a vitória e Atenas continuará tendo o controle das ilhas do Egeu. Irá demorar até que a próxima rebelião aconteça. E mais, seu nome chegou aos ouvidos de Péricles. Ficarei feliz se me permitir te apresentá-lo.

– Obrigada capitão. Ficarei feliz se me apresentar a Tucídides, não pense que eu me esqueci.

– Claro que não misthios. Tome, seu pagamento já com seu drachma extra, como prometido. Veja, esses foram os espólios capturados pelos nossos homens. Escolha o que quiser como gratificação.

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– Olha esse escudo. Digno da Égide de Atena. Um pouco pesado, seu antigo dono deveria ser alguém bem forte. Vou precisar treinar mais para conseguir usá-lo em batalha. Olha esses detalhes. A cabeça da Medusa em alto-relevo é capaz de paralisar qualquer um de medo. As cobras são feitas de bronze. Isócrates precisa ver isso, não é qualquer ferreiro que possui habilidade de fazer um trabalho desses. As bordas possuem algumas pedras coloridas cravejadas. Magnífico. Pelo cheiro a madeira usada é de cedro e as alças são de couro de cabra. Um escudo desse com certeza vale um ano de salário. Mas não vou vendê-lo, tanto suor para me manter viva que é melhor usá-lo. Não quero problema com os deuses. Sem dúvidas capitão, escolho esse.

– Perfeito misthios. Os mercenários retornarão à Atenas amanhã de manhã. Isso significa que não mais a verei, pelo menos pelos próximos dias. Foi uma honra tê-la ao meu lado, mas você é muito teimosa Kassandra. Sei que trabalha melhor sozinha do que se aventurar junto a um exército. Não se ofenda, mas não tenho interesse em te contratar de novo, a não ser que seja para me resolver assuntos particulares.

– Sem problemas capitão, aprendi algumas lições nesses últimos dias.

– Kassandra. Eu vi o que você fez a Nikephoros. Tome cuidado ao voltar à Atenas, os Alcmeônidas irão te procurar, pois não devo ter sido o único a ver o que fez.

– Foi ele que me jogou do Cefalópode capitão. Nadei por algum tempo e então consegui invadir aquele navio. Não peço que acredite em mim pois isso não muda o que aconteceu, só quero ter a consciência tranquila ao compartilhar minha versão dos fatos.

– Certo, mas isso não importa agora. Você está viva e ele não. Tome, folhas de sideritis, vai precisar para a viagem de volta. Se cuida. Até mais.

Chaire capitão.

Ao voltar à tenda encontro Isócrates.

Chaire Isócrates.

– Olá Kassandra, está melhor?

– Estou andando, não?

– Você veio em minha direção, gritou pelo meu nome e então foi atingida por um machado. Que susto. O que tem aí?

– Veja, bela Égide que ganhei como espólio. Se um dia quiser ser um mestre ferreiro terá que saber fazer um desses. Diókles me disse que você cuidou de mim enquanto estava apagada. Obrigada.

– Eu que devo te agradecer, você me protegeu a maior parte do tempo e teve paciência quando outros não teriam. Guerra não é comigo.

– Você se acostuma, eu também pensava assim quando comecei no ramo, mas isso é história para outro dia. Tome, para sua oficina.

– O que é isso? Kassandra, quanto dinheiro! Mas eu já peguei meu pagamento.

– Eu disse que teria meu drachma extra e consegui. Além disso Diókles me deu uma quantia extra repassada por Péricles, mas não conte a ninguém, é segredo. Fique com isso isso, deve ser o suficiente para comprar o que precisa.

– Minha gratidão será eterna Kassandra.

– Gratidão não paga contas, então procure ser o melhor ferreiro da Hélade e me dê algum desconto quando for à Egina.

– Claro. Levarei essas memórias ao meu túmulo. Kassandra, quando você foi lutar com aquele grandalhão disse que ia comer um peixe-espada, mas você sumiu e voltou toda machucada. O que aconteceu?

– Sabe como é, às vezes o peixe tem espinha e a gente se engasga. Mas chega de papo. Vamos participar dos jogos atléticos, temos que comemorar essa vitória. Depois vou tentar conversar com aquele jovem chamado Tucídides, dizem que ele conta histórias, gostaria de ouvi-las.

Lembro do resto daquele dia como se fosse hoje, uma pequena experiência de como seria viver nos Elíseos. Competições atléticas, comida farta e conversa fiada. São esses raros e breves momentos que fazem a vida valer a pena ser vivida. Não importa quão pesado e doloroso é um trabalho, pois sei que na frente da prosperidade colocaram suor os deuses imortais para testar nossa coragem. E não importa quão árduo e íngreme é o seu caminho, pois ao se aproximar do cume o caminhar se torna cada vez mais fácil, por mais difícil que antes houvesse sido.

No dia seguinte os mercenários retornaram a Pireus. Saímos muito cedo, pouco depois do sol nascer. O chá da montanha que Diókles havia me dado veio a calhar. Os ventos nos foram favoráveis e conseguimos chegar no início do anoitecer. Levei Isócrates para o Kapeleia já que só conseguiria voltar à Egina no dia seguinte.

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– Kassandra. Grande Kassandra. – Disse Aegidius. – Notícia boa também se espalha rápido e seus feitos já estão na boca do povo. Tome, esse é por minha conta.

– Dê a este jovem também. Isócrates é seu nome. Ouvirá falar muito dele, aspirante a ferreiro e prestes a se tornar pai.

– Ferreiro? Quer seu próprio ferreiro particular misthios? Ouvi dizer que conversou com Péricles em pessoa. Conte-me tudo.

– Te direi, mas antes nos vê algo para comer, veja o que consegue com três drachmas.

– Quatro?

– Dois!

– Está bem, três.

– Gostaria de ir ao teatro comigo? Gostaria de ver essa Antígona.

– Gostando de arte misthios?

– Não sei, preciso ver para criticar, não é? Além disso, tive a oportunidade de conversar com Sófocles. Sujeito interessante. Algum Alcmeônida me procurando?

– Para falar a verdade sim. Como sabe?

– Pegue um copo e senta-se, é uma longa história.


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