A portadora da Égide 3/4

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Os navios samios não eram páreos para a tempestade que logo tomou conta do mar.
Em instantes estávamos todos encharcados e o vento forte fazia as gotas de chuva nos atingirem como agulhas. Antes da primeira investida um relâmpago atingiu o Monte Mícala que fez todos se calarem.

– Mas o que é isso homens? – Gritou Diókles com sorriso no rosto. – Ah! Ah! Estão com medo? Não há nada neste Egeu que eu já não tenha visto. Se fosse para estarmos mortos assim Zeus, filho de Cronos, já teria feito. Bandeira vermelha no navio de Péricles, a primeira fila irá atravessar as linhas inimigas até o estreito, dar meia volta e golpeá-los pelas costas enquanto a segunda os reterão, como no treinamento. Se segure Kassandra e você também jovem ferreiro. Não vou pescar corpo nenhum hoje, vivo ou morto. Recomecem a canção e velocidade total.

Χαίρε Ποσιδόν! Ο ενοσίγαιος!

Χαίρε Ποσιδόν! O γαιήοχος!

Χαίρε Ποσιδόν! O Φράτριος!

Χαίρε Ποσιδόν! O Πελαγαίος!

Χαίρε! Χαίρε! Χαίρε!

E assim fomos buscar uma brecha nos navios samios em alta velocidade. A visibilidade era baixa e o som da tempestade dificultava em ouvir as ordens. Ao estar numa distância de tiro Diókles nos ordenou a preparar as lanças e as flechas. Primeiro os arqueiros e mesmo com ventos fortes as flechas acertaram as embarcações.

– Escudos! – Nos ordenou.

O ruim de passar por entre dois navios é que o escudo só te protege na frente, as costas ficam por conta da sorte.

– Lanças! Preparem! Recolher remos! Atirar!

Era o momento mais vulnerável da nossa manobra.
Atirei a lança o mais forte que pude, mas infelizmente ela fincou no casco por causa do vento forte.

– É assim que vai realizar metade das baixas deste navio misthios? – Me zombou Diókles.

– É assim que ela vai cavar a própria cova capitão e a nossa também. – Gritou Nikophoros.

– Cale a boca. Você também errou. Vamos, mais uma vez. Agora!

Tive que engolir seco e pensar duas vezes para não acertar aquele bastardo. O ódio guiou meu segundo tiro que veio acertar um escudo inimigo que fora perfurado. Ao olhar com raiva para o capitão vi um sorriso em seu rosto. Há formas e formas para um elogio e Diókles era discreto. Ao olhar para trás vejo Isócrates com as pernas tremendo, mas não sabia se era medo, frio ou os dois. Antes que pudesse alcançar seu ombro, o timoneiro virou o leme. No momento que a embarcação começou a se virar, me desequilibrei, escorreguei devido a chuva e caí de cara no chão em cima do meu escudo. Que dor infernal! Achei que havia quebrado meu braço, mas apenas o torci. Isócrates me ajudou a levantar e logo percebi que não conseguia mexer meus dedos. Pego então o escudo com a mão direita.

– Para dentro! – Gritou o capitão.

– Não!

– É uma ordem!

– Prefiro morrer lutando!

– Que morra …

Nesse momento pulo em direção a Diókles o abrançando com escudo acima de sua cintura protegendo suas costas. Dois tiros cravam no metal. Ao olhar para frente já estávamos novamente no alcance de flechas.

– Velocidade total e preparar para impacto. – Gritou Diókles.

Estávamos nos aproximando da nossa primeira vítima e me segurei o mais forte que pude. Seu capitão tardou em comandar o timoneiro para dar meia volta e os atingimos bem no meio do casco. A partir daquele momento tudo aconteceu muito rápido. O impacto foi tão grande que o navio se partiu em dois e eu fui arremessada para frente. Ao me levantar vi três hoplitas samios que haviam conseguido invadir nosso convés. O primeiro veio em minha direção com uma lança. Para neutralizá-lo me projetei em sua direção e o golpeei com a face de meu escudo, mas ao invés do infeliz cair no chão ele agarrou as bordas.
Instintivamente finquei meu pé esquerdo no convés e com muita força o empurrei ao mar e infelizmente acabei perdendo minha proteção pois fora junto com o soldado. O segundo simplesmente já estava morto ao chão, não vi quem o matou. Ao olhar para trás vi o próprio Diókles atravessar sua lança nas costas do terceiro.

– Remadores, recuar! Voltem aos seus postos – Ordenou.

Em instantes estávamos fora do navio destruído que havia afundado por completo. O mar borbulhava com os gritos dos desesperados que não sabiam nadar e dos hoplitas lutando para boiar dentro de suas pesadas panóplias. Depois da primeira investida minha visão congelou como se o tempo estivesse parado. O vento forte e o frio me faziam pensar “O que estou fazendo aqui? Dois drachmas por dia para isso?”. Não conseguia reunir forças para levantar meu braço esquerdo por completo, meu ombro queimava de dor e então chamei Isócrates para me auxiliar:

– Na próxima abordagem, você fica do meu lado, não saia de perto de mim, apenas use seu escudo. Consegue fazer isso garoto?

– Kassandra, melhor você descer.

– Shh! Não me dê ordens! Apenas confie em mim. Na próxima abordagem fique na minha diagonal, proteja minha esquerda.

Diókles deu um sinal e estavamos prestes abordar uma embarcação recém atacada pelo capitão Nikostratos. O timoneiro com maestria comanda o leme e os remadores para estarmos paralelos a nau inimiga. Um por um os remos inimigos foram sendo quebrados e ao som do último estalo iniciamos o ataque.

– Me dê sua lança Isócrates, não vai usá-la. Pegue a espada.

O primeiro a cair sequer me viu, estava de costas quando dilacerei sua coxa direita com um golpe certeiro. O grito de dor deixou Isócrates completamente mudo e assustado, que o fez hesitar em jogá-lo ao mar.

– Acorde homem! Estamos numa guerra! – Gritei.

Pobre ferreiro. Por um breve momento tive pena em vê-lo naquela situação, notoriamente era a primeira vez que estava em uma batalha de verdade. Mas guerra é guerra e temos que fazer concessões, por mais dolorido que possa ser pensar que atrás de uma couraça há alguém lutando a contragosto, um pai, um filho ou um irmão. Com Isócrates entendi que ele só reagiria no grito e assim aconteceu.

O segundo veio em nossa direção e golpeou nosso escudo com um machado duas vezes. No terceiro golpe o atingi com a base da lança no joelho esquerdo, fazendo-o cair.

– Empurre! – Gritei

Mas Isócrates não o empurrou com força e o soldado ainda no chão pegou seu machado e estava prestes a arremessar em minha direção. Como um leão saltei em cima dele e fiz minha lança atravessar seu pescoço no momento do arremesso. A cabeça do machado atingiu meu ombro esquerdo sem muita força, mas a lança cravou no chão do convés.

– Me dê sua espada, tire a lança do chão.

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Demétrius, nosso melhor hoplita, estava sendo atacado por dois soldados no centro da nau. Num lance rápido golpeei por trás um deles de baixo para cima rasgando sua posterior de coxa. Tão logo o outro se virou para me atacar e sua cabeça fora decaptada pela lámina amiga.

– Obrigado misthios.

De repente os remadores começaram a sair para o convés munidos de facas. Mesmo menos habilidosos eles eram muitos e iriam nos trazer problemas.

– De volta ao navio! – Comandou Diókles.

Prontamente retornamos todos a nossa nau, ou quase todos. Isócrates havia ficado e misteriosamente estava munido da lança que eu mandara pegar e se defendendo de dois remadores.

– Isócrates! Volta maláka. – Gritei – Isso é hora de ter coragem? Volta porra.

Infelizmente o desgraçado não me ouviu e para piorar Nikephoros sugeriu deixá-lo à própria sorte.

– Deixe-o lá capitão. Não podemos arriscar toda nossa tripulação por causa de uma besta como essa.

– Cale-se! – Gritei. – Um momento capitão.

– Kassandra ….

Não o dei ouvidos, não tinha tempo. Num pulo estava de volta na nau inimiga e no meio da confusão ainda causada por Nikostratos cheguei até Isócrates. Antes mesmo que eu pudesse dar o primeiro golpe, o remador samio se anteveio e investiu sua pequena adaga para me acertar na garganta. Por três vezes me esquivei, na quarta me projetei em sua direção, segurei seu braço e num giro o catapultei para a água. Ao me virar para popa vejo a lança de Isócrates ensanguentada pois acabara de acertar a panturrilha do outro remador. Em três passos largos já estava no alcance de um golpe e dilarecei o lado esquerdo de sua barriga, fazendo cair no chão parte de suas víceras.

– Você quer matar alguém acertando o pé sua besta? – Disse – Vamos, volte ao barco.

Num instante escuto um zumbido forte veio em minha direção e em seguido um grito.
Isócrates fora atingido por uma flecha no ombro direito.

– Corra, vamos sair rápido!

De volta ao Cefalópode coloquei Isócrates sentado no convés, retirei a flecha que por sorte pegou de raspão e não chegou a perfurar profundamente.

O capitão veio em nossa direção e deu um tapa forte na cara de Isócrates que o fez parar de gritar instantaneamente.

– Quer acabar com meu barco seu animal? E você Kassandra, pense bem antes de tomar sua próxima decisão pois poderá ser a última em meu barco. Não ouse desobedecer mais uma ordem minha. Entendido?

– Sim capitão. – Disse.

– Sinal do navio de Péricles, vamos fechar o cerco.

A manobra da esquadra ateniense estava funcionando e tínhamos encurralados os navios samios num pequeno círculo, sem qualquer espaço para manobra, porém infelizmente tínhamos três homens a menos que perderam suas vidas nessa investida. O Cefalópode foi um dos últimos navios a fechar o círculo e assim o fizemos indo de encontro a uma embarcação a toda velocidade.

Χαίρε Ποσιδόν! Ο ενοσίγαιος!


Χαίρε Ποσιδόν! O γαιήοχος!

Χαίρε Ποσιδόν! O Φράτριος!

Χαίρε Ποσιδόν! O Πελαγαίος!

Χαίρε! Χαίρε! Χαίρε!

Assim cantaram nosso remadores o mais alto que conseguiam dando tudo de si, pois poderia ser nossa última investida. Por sorte nunca experimentei como era ser um remador, trabalho puramente braçal sem qualquer descanso e sem poder ver o que há pela frente. Com meu braço esquerdo ainda sem total mobilidade e Isócrates com seu ombro direito ainda sangrando, tivemos que trabalhar como uma única pessoa, eu o ataque e ele a defesa.
A água ao redor do grande círculo estava tomada de vermelho quando o ariete do Cefalópode perfurou o casco da embarcação inimiga. Toda a tripulação rapidamente invadiu o convés e Diókles nos ordenou a ficar de olho nos remadores para impedi-los de saírem dos remos. Não gostei nada dessa ordem, por mais que já estava conformada que não onseguiria cumprir minha promessa para ganhar meu drachma extra, mas não estava disposta a testar a paciência do capitão. Ao lado de Isócrates havia um tambor com braseiro usado pelos arqueiros. Num instante estávamos segurando as alças e jogando as brasas dentro do convés para ganhar algum tempo.

– Kassandra, atrás de você. – Disse Isócrates

Vi então outro tambor, com óleo quente. Pegamos um de cada lado e o despejamos junto as brasas. Em pouco tempo a fumaça densa começou a subir, junto com os gritos dos remadores que tomaram conta do navio. No sinal das primeiras chamas Diókles deu o comando para voltarmos ao Cefalópode. Na volta Isócrates caí nos meus pés com um grito e ao levantá-lo vejo o motivo. Um hoplita enorme digno de Héracles com um grande machado em suas mãos.

– Corra Isócrates! É hoje que vou comer um peixe-espada.

Nem sempre damos o tiro certo e tentamos abocanhar mais do que conseguimos mastigar. Eu sabia que no mano a mano não teria chance contra aquela pilha de músculos, mas para minha sorte ele não devia exercitar o cérebro.

– Vai morrer! – Disso com uma voz rouca.

– Todos nós vamos, mas você vai primeiro seu maláka. Pode vir!

O grande hoplita correu em minha direção levantando seu machado pronto para me decepar e no momento do golpe me joguei com força na altura de suas canelas. Seu peso e sua panóplia pesada o fizeram desequilibrar e cair no mar. Demétrius, já no Cefalópode, o acertou com um dardo na altura da cabeça e em instantes já estava nas profundezas do Tártaro.

Já não estava no auge da minha juventude e a fadiga começara a me incomodar.
Diókles já havia ordenado o timoneiro recuar a embarcação e tive que dar um salto para entrar no navio, mas meus pés escorregaram no parapeito, caí de barriga na quina mas consegui me segurar com minha mão direita.

– Me ajudem! Me peguem! Capitão! – Gritei.

Minha última visão foi de um pé se aproximando e outro pisando em minha mão.Com dor soltei a mão e antes de cair no mar vi o rosto do meu carrasco. Nikephoros. Maláka.


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