A portadora da Égide 2/4

Publicado por

Leia também no Inkspired ou Wattpad

Anúncios

Em seguida cada um foi para sua respectiva nau e lá estava eu no Cefalópode junto com mais cinquenta e nove embarcações. Cento e cinquenta remadores, quinze hoplitas, incluindo essa que voz fala, cinco arqueiros, o timoneiro e Diókles como trierarca. Parece pouco, mas Atenas preferia manobrabilidade para impacto ao invés de abordagem. Um choque perpendicular certeiro é capaz de rasgar uma embarcação. Para meu azar o tempo estava se fechando com nuvens negras na direção de nosso destino, mas o maior problema era Nikephoros, um pequeno ateniense calvo, xenófobo e muito religioso.
Mal as velas foram içadas e já começaram os burburinhos.

– Uma misthios e um pobre ferreiro de Egina. Mas que porra é essa? Não temos homens suficientes em Atenas? Sou um Alcmeônida, esses trastes não são dignos de estarem conosco.

Não era um bom momento para começar uma briga e por sorte Diókles ouviu o cochicho.

– Digno? – Perguntou o trierarca em voz alta. Qualquer um capaz de enviar inimigos ao Hades é digno de estar em meu navio. Aqui não vejo rostos, mas remos, pontas de lança e flechas. E lembre-se que você é um bastardo meu jovem, seu sobrenome pesa tanto quanto o ar que respiras, caso contrário não estaria aqui, mas em um navio de sua família. Ocupe tua mente com a batalha que está por vir.

Chamei Isócrates num canto para conversar, estava ficando enjoada de novo e achei que conversar talvez me distraísse. Minha cabeça girava em desarmonia com o barco, quando subia minha cabeça descia e vice-versa. Não conseguia andar direito, a cada passo que dava era como se meu corpo se projetasse para os lados e mesmo parando sentia o corpo a continuar a andar. O suor frio e enjoo foram aumentando até que não pude segurar e vomitei no parapeito da popa. Todos se viraram pra mim com olhar de reprovação.

– É assim que vamos ganhar? – Comentou Nikephoros.

– Cale-se. – Respondeu Diókles. – Está tudo bem misthios? Não me disse que tinha problemas com o mar. Achas que consegue continuar? Veja, não há problema desistir, nem todos foram feitos para o mar. Além do mais não vou poder te pagar se não tiver condições de lutar.

– Eu já te disse que serei responsável por metade das baixas desse navio e você ainda vai me dar meu drachma extra. Preciso de água quente, tenho sideritis, um chá me fará melhor. E se essa porra não calar a boca eu mesmo o jogo aos tubarões.

– Silêncio! Ninguém vai jogar nada ao mar a não ser inimigos. Mas que merda, que dedo podre tenho para escolher tripulação. Escutem todos. Não quero que se gostem, não os obrigo a comerem na mesma mesa ou rirem das piadas uns dos outros. Exijo apenas que tenham foco no nosso objetivo. Entendido?

– Olhe essa tempestade capitão. – Disse Nikephoros. – É um mau presságio, tive um sonho essa noite com tempestade e homens se afogando. Temos um homem a menos com essa bárbara neste navio.

– Chega! Bastardo Alcmeônida, fique na proa e misthios na popa ou dentro do convés. Todos ao trabalho.

Logo após a discussão peguei um pouco d’água no convés e preparei um chá. Tomei três goles e instantaneamente comecei a suar. O restante guardei em meu odre para caso o enjoo voltasse. Aconselhado por Isócrates me envolvi em minha capa e desci aos remos. Estava ficando com febre e o vento gelado do outono não me faria bem após uma bebida quente. Constantemente Isócrates trocava panos molhados em minha testa enquanto tinha alucinações no chão do convés. A confusão mental era tanta que tive uma visão de minha infância correndo pelas planícies de Plateias na colina do santuário. Quando senti que iria desmaiar só consegui dizer:

– Diga que não dormi direito e já volto …

Minha última visão era de Isócrates acenando com a cabeça. Acabo apagando, mas lembro-me de alguns instantes onde água respingava em meu rosto e o barco chacoalhava muito. Quando acordo, meu rosto estava quente, não de febre, mas sim do sol na minha cara. A tempestade havia passado.

– Foi um tempestade digna de Odisseu. – Disse Isócrates. A pior que eu já passei. Sorte que esteve dormindo. Está melhor?

– Sim, o enjoo passou, estou bem melhor. Onde estamos?

– Capitão comentou que a pouco passamos por Naxos, devemos estar na metade do caminho. Chegaremos à noite e teremos um dia livre antes do combate. Venha, vamos comer alguma coisa.

Chegamos perto da meia noite na ilha de Tragía, estava exausta mesmo nada tendo feito no navio. No dia seguinte Péricles discursou a todos para compartilhar o plano. Não era nada bom, o cerco era inevitável e minha sorte estava na batalha naval a ser travada no dia seguinte. Se houvesse vitória os mercenários seriam dispensados. Mas estava receosa pois fazia muito tempo desde minha última batalha naval e dezesseis navios haviam se dispersado durante a viagem a outras missões. Além do mais precisava acalmar o pobre Isócrates. Arrumar forças para manter as aparências e fazer parecer que está tudo bem não é uma tarefa fácil, mas necessário. Há situações em que você sabe que vai perder, como um boi indo para o abate, mas seja o que for não transpareça isso ao seus companheiros.

– Estaremos em desvantagem numérica – Disse Isócrates.

– E quando nós helenos não estivemos? Os atenienses possuem um bom histórico de vitórias marítimas. São os mais preparados, treinam bastante e usam estratégia ao invés de força bruta. Confie em nossos comandantes, pois é melhor ter um plano, mesmo que ruim, do que nada. Entretanto não gosto nada de um cerco, precisamos vencer o mais rápido possível para sermos dispensados.

– Mas quanto mais demorar, maior será nosso pagamento, não?

– Quanto vale teu sono Isócrates?

– Bem… não tem preço.

– Você é mais esperto do que a maioria da nossa tripulação. Se ficarmos um ano aqui teremos muito dinheiro a princípio, certo? Mas e se morrermos no último combate? Do que adiantou todo esse suposto dinheiro? Além do mais, para nos dar um calote não é necessário muito. Aceitei esse trabalho por precisar do dinheiro, mas é necessário que seja rápido.

– Você não tem reservas?

– Apesar de que para pagar Caronte preciso apenas de uma moeda, não sou tão desprovida de inteligência nessas questões quanto alguns possam pensar. Tenho um pedaço de terra em Plateias. Não é bem meu pois não posso ter posses em meu nome, mas fui eu quem comprou. Deixo para pessoas de confiança cuidarem, filhos daqueles que me criaram. Como não levo jeito e não tenho paciência para arar ou tecer prefiro conseguir meus drachmas como uma misthios. Um quinto do que ganho no ano levo para lá para custear o que for necessário como ferramentas ou reparos, geralmente no início do verão. Costumo passar os dias mais frios do inverno por lá, já que trabalhos são escassos nessa época. Porém não gosto de ficar muito tempo parada. Viajar e conhecer o mundo é o que gosto de fazer e para isso quanto menos eu levar comigo melhor. Mas chega de papo furado e vamos treinar um pouco. Exercício ajuda a diminuir a ansiedade e precisamos estar preparados.

Como Tragía é uma ilha pequena corremos uma volta completa, por volta de 100 estádios, porém demoramos mais do que o previsto pois Isócrates estava mal fisicamente mesmo para um jovem ferreiro. Após o exercício fomos comer e nada de luxo quando se está em guerra e você é uma mercenária. Mingau de aveia e algumas frutas secas. As refeições eram servidas nos próprios navios, atracados no porto. Como pedido por Diókles, procurei me afastar de problemas e me sentei longe de Nikephoros.

Anúncios

Passamos a tarde treinando manobras marítimas sob sol escaldante. Transição da formação em linha para em círculo além de abordagem em navio inimigo. Infelizmente os enjoos voltaram a me atormentar e tive que recorrer ao chá da montanha em meu odre.
À noite alguns carneiros foram sacrificados e pudemos enfim comer um pouco de carne e tomar um pouco de vinho. Pelo menos os atenienses demonstraram compaixão pelos mercenários e nos ofereceram uma refeição digna que para alguns seria a última.

No dia seguinte acordo com os gritos das gaivotas no alto do mastro do Cefalópode.
Isócrates ainda estava dormindo e não quis acordá-lo, deveria estar muito cansado, talvez nunca se exercitara tanto. Senti um pouco de pena dele e de sua pobre esposa. Como em qualquer luta os mais jovens e inexperientes são sempre as primeiras baixas. Ele poderia morrer afogado, ou com uma ponta de lança atravessada em suas costas ou uma lâmina enterrada em sua coxa, ou ainda ser capturado e vendido como escravo. De qualquer forma sua esposa não mais o veria. Sentia a responsabilidade de acolhê-lo mesmo sabendo que não poderia com absoluta certeza cumprir minha promessa e os deuses sabem cobrar os tributos de quem não cumpre seus juramentos. O deixei dormir pois poderia ser seu último sono enquanto vivo.

Engoli um mingal de trigo e preparei uma pequena fogueira para realizar minha oferenda.
Poseidon e Atena, os mesmo que outrora haviam lutado pela tutela de Atenas agora eram alvos das minhas preces. Em seguida fui para o mar, nada como um banho gelado logo de manhã para acordar o espírito. Ao voltar ao navio Diókles já estava em pé, como um bom capitão que sempre acorda antes da tripulação.

– Bom dia misthios. Enjoo?

– Não capitão. Ter trazido sideritis está me ajudando.

– Tem certeza que consegue lutar? Se achas que a viagem foi difícil é por que não esteve num navio durante um impacto.

– Tem certeza que consegue me pagar meu drachma extra?

– Uh! Teimosa como uma porta. Bem que Aegidius me alertou. Posso te pagar metade se desejar ficar em terra e cuidar dos feridos. Não posso colocar meu navio em risco. Se quiser, consigo te alocar em outro navio, conheço outros capitães.

– Não posso quebrar um juramento feito aos deuses, capitão. Peço que não mais me faça desistir.

– A escolha é sua.

– Capitão, quem é aquele ao lado Sófocles?

– Tucídides, filho Olorus da Trácia. Possuem seu próprio navio, provavelmente financiado pelas minas de ouro que possuem no Monte Pangeu. Por que pergunta?

– Nada demais, talvez eu o possa ser útil após esse conflito. Se tem uma mina de ouro, pagamento não deve ser problema. Gostaria que me apresentasse amanhã, caso nós três ainda estivermos vivos.

Após algum tempo todos se reuniram diante de Péricles e seu discurso foi mais ou menos assim:

– Atenção homens. Breve será minha fala pois escasso é nosso tempo. Nossa constituição não é uma cópia das leis de nossos vizinhos, ao contrário, somos um padrão para outros estados ao invés de meros imitadores. Nossa administração favorece muitos ao invés de poucos, por isso ela é chamada de democracia. Nossas leis oferecem igual justiça para todos e liberdade que se estende para nossas vidas particulares. Nossa cidade está aberta ao mundo, nunca excluindo algum estrangeiro de qualquer oportunidade para aprender ou observar, apesar de olhos inimigos ocasionalmente lucrarem pela nossa liberalidade. Ao contrário dos lacedemônios que sempre empreendem em solo inimigo acompanhados de seus consortes, nós atenienses sempre atendemos o chamado de nossos aliados com nossa força própria. Somos a escola da Hélade e duvido que o mundo possa produzir alguém tão versátil e capaz de depender apenas de si próprio como um ateniense. Mas não nos esqueçamos de nossos ancestrais, que através de gerações nos permitiram ter a liberdade que hoje desfrutamos, pelo seu suor e sangue. Escolheram morrer do que se submeterem a força alheia. Nós como sobreviventes devemos honrá-los.

Após cada um tomar sua posição nas naus, navegamos ao norte em direção a ilha de Samos. Os navios inimigos já estavam à vista, lado a lado com pouco espaço entre cada um. As velas estavam abaixadas e parecia que a cada batida do meu coração elas aumentavam de tamanho. Porém o pior estava atrás. Uma grande tempestade se aproximando. Mesmo controlando a respiração um pouco de enjoo infelizmente começou a me atacar e minha cabeça estava girando dentro do pesado elmo de ferro. Em voz baixa eu rezava para que os deuses me permitisse sobreviver e ao passar a mão em minha cintura percebo que meu odre não estava onde deveria.

Maláka. Isócrates, venha cá! Você viu meu odre? Merda, devo ter esquecido na praia. Olhe a cara de Nikephoros. Está sorrindo do que? Será que ele me roubou?

– O que foi Kassandra? – Me perguntou Diókles.

– Nada capitão, só estou com sede e esqueci meu odre.

– Tome, pegue do meu. Atenção todos! Serei breve, já que não tenho o mesmo talento de Péricles para tecer belos discursos. Alguns de vocês, talvez eu mesmo, não terão a oportunidade de ver o sol se pôr hoje à noite. Mas saibam que entre nós e glória os deuses imortais colocaram o suor, para testar nossa coragem. Jamais nos render, mesmo diante da morte. A dor e o cansaço proveniente dos incansáveis treinamentos nos trará a vitória com excelência.
Dominem seus medos e eu lhes prometo que terão espaço nos Elíseos.

Nada como poucas e encorajadoras palavras para inflamar o espírito dos mais jovens, eu não mais me emociono com tais artifícios. Com um simples comando as velas foram levantadas e os remos abaixados. A guerra acabara de começar. Batalhas navais sempre me deram arrepios. Com sinais de bandeiras dados pelo navio de Péricles os navios se rearranjaram conforme o planejado e o Cefalópode era o primeiro do flanco esquerdo. Quando olho ao redor vejo as embarcações dispostas em duas linhas onde a de trás possuia um espaço maior entre os navios. Cada um de nós tomou sua posição e lá estava eu na popa pelo lado direito. Nós hoplitas preenchemos o contorno ao passo que os arqueiros ficaram no centro. Para cadenciar o ritmo dos marinheiros o timoneiro inicia a canção, logo cantada por todos:

Χαίρε Ποσιδόν! Ο ενοσίγαιος!

Χαίρε Ποσιδόν! O γαιήοχος!

Χαίρε Ποσιδόν! O Φράτριος!

Χαίρε Ποσιδόν! O Πελαγαίος!

Χαίρε! Χαίρε! Χαίρε!

Salve Poseidon! O abalador da Terra!

Salve Poseidon! O protetor!

Salve Poseidon! O pai!

Salve Poseidon! O marítimo!

Salve! Salve! Salve!


Anúncios

Gostou? Comente & compartilhe!

Leia também no Inkspired ou Wattpad

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s