A portadora da Égide 1/4

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“Enquanto viveres, brilhe

De todo não te aflijas

Pois curta é a vida

E o tempo cobra seu tributo.”

Epitáfio de Seikilos

Se hoje sou conhecida por ser a portadora da Égide há de existir uma razão e ela começa no outono da octogésima quinta olimpíada.
Estava na região portuária de Pireu, a 45 estádios da acrópole de Atenas.
Havia acabado de chegar de uma viagem escoltando um navio de Egina com um carregamento de grãos.
Viagens marítimas não são o meu forte, sentia muito enjoo e ainda sinto só de imaginar.
Felizmente ocorreu dentro do planejado e não fomos atacados.
A sede por um bom vinho me levou até Kapeleia, do saudoso Aegidius.

– Saudações misthios.

Chaire Aegidius.

– O que te traz aqui?

– Egina, vim no Eidoteia.

– Egina? Pensei que estivéssemos em guerra. Acho que se cansaram, pelo menos por um pouco.

– É preciso respirar de vez em quando. Me vê algo para enjoo, Poseidon sempre me prega peças com náuseas em alto mar.

– Tome, chá da montanha, te fará bem.

– Faz tempo que não ando pela Ática, o que tem acontecido de importante?

– Sófocles estreou sua nova peça, Antígona.

– Perguntei de importante Aegidius.

– Ora Kassandra, arte é importante.

– Vocês atenienses e suas “artes”. Ouvi a história, mas não sou fã de teatro.

– Pois deveria, ao nos colocar no lugar dos personagens conseguimos melhor entender a nós mesmos. Qual o limite do poder de um monarca? Até que ponto devemos nos forçar a seguir uma escolha errada por pura teimosia? Felizmente não temos um Creonte em Atenas, não mais.

– Enfim, tem vinho de Quios?

– Por que não teria? Tome. Com um dracma te consigo um pão, figo e sardinhas.

– Aceito. Sabe de algum serviço? Alguém precisando de algo?

– Estive ontem no Pnyx, Péricles conseguiu convencer a assembleia para enviar uma ajuda a Mileto contra Samos. Talvez precisem de reforços em algum navio. Dê uma olhada no porto.

– Mileto? Merda. Se eu for viajar para tão longe é melhor eu levar chá da montanha. Parece que não tenho muita escolha, meu dinheiro está curto.

– Sei que não gosta do mar, mas é uma boa oportunidade. Dois dracmas por dia mais a alimentação.

Maláka! Já consegui muito mais com menos esforço. Não gosto de me servir em guerras, às vezes costumam se arrastar por meses e o custo-benefício não é bom, principalmente se eu escolher o lado errado.

– Não diga isso misthios, nossa frota aumentou e melhorou bastante. Na época de Temístocles possuíamos poucos barcos, nem todos tinham um convés e dispunham de apenas cinquenta remos. Mesmo assim conseguimos expulsar os persas em Salamina, um grande feito. Hoje nossos navios suportam o triplo de remos e são bem mais robustos, com aríetes de bronze. Ainda te recomendo ir ao porto. É melhor do que nada. Procure por Diókles capitão do Cefalópode, um velho amigo meu. Sua vela é polvo vermelho, não tem como não notar. Se tiver sorte é capaz de encontrar Sófocles, ele também irá a Mileto.

– Obrigada Aegidius.

Depois de comer fui ao mercado comprar alguma oferenda. Pireus havia mudado bastante desde a última vez que a visitara e o efeito do dinheiro que Atenas angariava de seus aliados podia ser notado por toda a cidade. Ao sair do Kapeleia passei pelo bairro dos escultores, cheios dos enormes blocos de mármore do Monte Pentélico prontos para serem transformados em alguma estátua ou coluna de algum novo templo. O tilintar dos cinzéis nas rochas era hipnotizante, poderia ficar o dia inteiro assistindo o trabalho daqueles artistas. Para minha infelicidade a ágora estava cheia, muito cheia. Sotaques de todos os cantos da Hélade eram possíveis de serem notados e quando há muitos clientes os preços sobem. Do lado das bancas dos ceramistas encontro uma velha vendedora.

Kalimera senhora.

Chaire minha jovem de belos cabelos castanhos. Está aqui pois precisa do perdão dos deuses, não é mesmo? Quem não precisa? Somos todos imperfeitos ao olhar dos imortais. Olíbano, lavanda, trigo, vinho e água lustral. Tudo o que você precisa para se redimir do seu pecado.
Diga-me minha jovem, a qual deus você está em débito?

– Devagar senhora. Não cometi crime nenhum, não ainda. Venho buscar uma oferenda para agradecer meu último trabalho.

– Ah sim, agradecimento. Inteligente de sua parte. Por dois dracmas você leva esse saquinho de olíbano e um ramo de lavanda, bastará para suas necessidades.

– Dois dracmas? Está maluca? Tenho cara de aristocrata? Não é porque a cidade está cheia de estrangeiros que todos são ricos.

– Quem é você?

– Kassandra, filha de Xenocrates e Kallíope , sou de Plateias.

– Ah! Beócia. Está explicado sua avareza.

– Avareza não, dou valor ao meu dinheiro que com muita labuta o conquisto. Meio dracma.

– Mas que insulto!

– Insulto? Se eu for dar uma volta no campo encontro ramos mais bonitos.

– Então vá, simples.

– Um dracma.

– Fechado.

– Sabe de alguma coisa sobre a expedição à Mileto?

– Só sei o suficiente para repor meu estoque, estou tendo boas vendas.

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Malcriada, não? Em seguida fui até o templo de Zeus. Magnífico. Dizem que Fídias coordenou sua construção e pessoalmente esculpiu a estátua do deus. A onipotente figura ficava nos fundos do salão, sentado com suas vestimentas douradas e um grande cajado na mão esquerda. O rosto ligeiramente inclinado para baixo dá a sensação de estar constantemente te vigiando e te julgando pelo seu olhar fumegante. Após ter realizado minha oferenda, fui dar uma volta no porto. O cheiro de peixe salgado estava por todos os lados e me dando um pouco de enjoo. Pessoas indo e vindo carregando provisões, comida aos navios, soldados se apresentando e outros se alistando. Um dos últimos navios no cais, o Cefalópode de fato era fácil de reconhecer.

Chaire soldado. Procuro por Diókles.

– Se for para entregar as sardinhas deixa-as comigo.

– E eu tenho cara de pescadora? Vim me alistar.

– Alistar? Uma misthios. Com essa cara pálida está mais para isca de tubarão.

– Olhe como fala maláka. Posso cortar sua cabeça antes mesmo que …

– Que discussão é essa? – Disse uma voz rouca.

– Essa misthios quer se alistar capitão.

– Parem gritar como duas gaivotas e suba aqui misthios.

– Bom dia capitão. Sou Kassandra, Aegidius do Kapeleia me recomendou vir até aqui. Vim oferecer meus serviços.

– Certo. Última posição preenchida. Dois drachmas por dia mais a alimentação. Um terço do pagamento agora e o restante quando retornar.

– Três drachmas.

– Dois drachmas! Todos aqui ganham igual. Remadores três óbolos, soldados dois drachmas. Você ganha dois. A não ser que queira remar e lutar.

– Três drachmas e mato metade dos inimigos que esse navio irá enviar ao Hades.

– Dois drachmas e se continuar a encher o saco terá que procurar outro navio. Esta é uma batalha naval e não um campo aberto.

– Está bem. Quanto tempo acha que vai durar a missão?

– Só os deuses sabem. Se conseguirmos uma vitória naval os mercenários serão dispensados e o cerco contará apenas com o nosso exército. Seu trabalho começa já. Preciso terminar de carregar comida e água fresca. Ei! Aegidius comentou sobre você. Se for tão extraordinária quanto são suas histórias, pensarei no seu drachma extra.

Ao chegar no armazém vejo um rosto familiar. Isócrates de Egina que havia estado no Eidoteia. Era um jovem ferreiro recém casado com Alexandra, que viria a ser uma excelente tecelã. Também fora ao Cefalópode buscar um trocado a mais e estava muito nervoso, não era acostumado nas artes bélicas e fizemos um trato, ficaria junto dele e em troca consertaria meus equipamentos.Finalizado o carregamento fomos dispensados para descansar.

No dia seguinte, antes mesmo dos pássaros começarem a cantar eu já estava desperta. Por mais que estivesse na Ática, farta em produtos vindos do leste, não era hora de peripécias gastronômicas, então tive que me contentar com pão, azeitonas e peixe salgado. Em minha bolsa havia um mini estoque de folhas de sideritis para fazer chá da montanha caso fosse necessário. Achei que seria a primeira a chegar no cais, mas Isócrates já estava por lá.

Chaire Isócrates, caiu da cama?

– Olá Kassandra, não cai pois nem cheguei a deitar direito.

– Relaxa, você tem vinte anos ainda, tem muito o que viver.
Enquanto estiver do meu lado não há com o que se preocupar.

– Estou muito ansioso misthios, Alexandra está grávida, não posso morrer, mas preciso desse serviço para poder montar minha própria oficina em Egina.

– Hey! Que boa notícia. Qual o nome da criança?

– Se for homem, Lykos, se mulher, Tauranis.

– Tauranis? Não é um nome muito comum, mas é bonito, soa forte. Se voltarmos vivos te pago uma bebida para comemorar.

Na metade da manhã o porto já estava completamente cheio, como se toda Atenas tivesse saído em marcha da Acrópole. Todos se reuniram em frente ao santuário de Atena onde um sacerdote realizou oferendas e dirigiu preces à deusa para proteção:

Palas unigênita, prole insigne do grande Zeus,
Divina, venturosa deusa de coração brutal no tumulto da guerra,
Inominável, nomeável de nome magno, habitante dos antros.
Armas te agradam, açoitas almas mortais com loucuras,
Donzela dos exercícios com um coração fremente,
Matadora da Górgona que evitou o leito, mãe multiafortunada das artes,
Urgente, amiga do desvario nos maus, da prudência nos bons
Nasceste masculina e feminina, belígera e astuciosa,
Mutante forma de esplêndidas honras, serpente, amiga da inspiração divina,
Tritogênia, árbitra dos malignos, nume vencedor
Sempre, dia e noite, nas horas mais sublimes.
Escute nossas preces, dai-nos paz em nossa jornada,
Deusa de olhos glaucos, inventora das artes, rainha de muitas súplicas!

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