Geraneia 2/3

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É sempre importante demonstrar imponência no primeiro contato, pois garante respeito. Após concluída a tarefa, me despedi de Sarpédon e fui até a pequena hospedagem onde estava passando as noites. Ao cantar do galo me levanto antes mesmo do amanhecer para me arrumar. O desjejum reforçado foi de mingau de trigo com leite de cabra e figos secos, além de pão com um pouco de vinho. Após me vestir com minhas armas fui até o estábulo pegar o Bálios, meu magnífico corcel de pelo dourado. Segundo Homero, Bálios foi dado a Peleu pelos deuses, que posteriormente foi usado por seu filho, Aquiles de pés ligeiros, nas planícies de Tróia. Gostaria de chamá-lo de Pé de pano pelo seu suave cavalgar, mas respeitei o nome dado pelo seu antigo dono, cuja história não vem ao caso no momento.

O dia havia amanhecido nublado e logo cheguei à fazenda de Heliodóros. Era época de colheita de azeitonas e uvas, a estrada estava cheia de trabalhadores, carroças indo e vindo. O clima ameno e cheiro das uvas tornavam o cavalgar mais agradável. Cercadas por videiras e muitos trabalhadores logo vi que estava no lugar certo. O mensageiro do dia anterior veio ao meu encontro e me levou até o pátio. A casa era grande, talvez a maior da região.

– Um momento, vou chamar Heliodóros.

Conhecia Heliodóros apenas pelo nome. Nunca o vi pessoalmente, mas Sarpédon comentou que ele era alguém importante e rival do líder de Megáris, então já sabia o que esperar. Com certeza era alguém muito influente não apenas pela sua riqueza mas também pela milícia que possuía à sua disposição. Pude contar pelo menos uns quinze soldados rondando a propriedade.

– Então você é Kassandra?

– Disse Heliodóros, um homem de estatura alta, sem barba, cabelos grisalhos e com um ἱμάτιον (himátion – túnica de lã ou linho usada por homens e mulheres) púrpura.

– Saudações meu senhor.

– Venha, vamos caminhar enquanto negociamos.Você faz ideia do porque te contratei?

– Não diria que aceitei o serviço.

– Ora, Bulis não te deu nada ontem?

– Sim, mas gosto de avaliar os riscos antes de aceitar um trabalho.

– Não me aborreça misthios. Seu nome me foi cuidadosamente passado por alguém de confiança. Sei que irá aceitar minha proposta. Mas não me respondeu, tem alguma ideia do porque te chamei?

– Você é alguém importante para pólis, tem muitos escravos, propriedades, uma milícia particular e dado que não é o líder de Megáris diria que está tentando enfraquecer a política local e depois tomá-la para si.

– Você é uma garota esperta. Esperta até demais. Mas preciso da força de seu punho, não da sua astúcia. Atualmente Megáris possui boa relação com Atenas, que sei que financiam um golpe para instituir uma democracia em nossa pólis e por fim nos usá-la como ponta lança em sua expansão por toda a Hélade. Essa ameaça precisa ser sanada.Vejo uma crescente instabilidade em nosso mundo e uma guerra pode prejudicar meus negócios. Tenho bom relacionamento com os lacedemônios e quero continuar tendo. É preciso desmoralizar Hippárinus, meu inimigo político. Sua missão é invadir o forte no monte Geraneia e roubar o tesouro nele escondido. Além disso, é necessário expor de alguma forma os soldados mortos, a forma fica a seu critério.Isso afetará sua reputação como gestor do tesouro. Do resto cuido eu.

– Invadir um forte, matar todos os soldados e ainda roubar o tesouro da pólis!Não me parece uma missão factível para uma única pessoa.

– Não está interessada? Te pago dez vezes o que te foi adiantado.

– É uma boa quantia.

– O forte não é muito bem guardado, diria que não há mais do que vinte soldados por turno. Não precisa matar todos, apenas o que julgar suficiente para causar terror às pessoas. Sobre o tesouro, não há muito em nossos cofres já que nem toda a fortuna fica guardada lá. Os baús ficam localizados na sala central. Um já é o suficiente. Trága-o aqui na calada da noite, para que ninguém a veja.Seu pagamento será tirado de lá e nem pense em fugir. Cem dracmas. És esperta mas é uma só, meu exército irá buscar tua cabeça mesmo no Hades.

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– Você sabe mesmo como intimidar alguém.- Espero que esteja aqui antes do amanhecer de amanhã.Até lá não me procure, estarei ocupado o dia todo.Bulis estará a seu dispor para qualquer ajuda.Até mais {misthios}.

– Χαίρε (Chaire – Olá). Bom, agora sei seu nome.Bulis. Muito prazer, Kassandra.

Chaire.

– Você é alguém de poucas palavras, não é?

– Só falo o necessário. Não tenho tempo a perder. Do que precisa?

– No momento apenas um roupa de trabalhador, não quero que ninguém me veja como uma ameaça. Quando voltar, posso precisar de mais coisas.

– Quando voltar, só perguntar para qualquer soldado pelo meu nome.

Após a rápida e desconfortável negociação, resolvi inspecionar as redondezas me disfarçando de coletora de uvas. A pequena fortaleza fica localizada numa região alta por volta de setenta estádios(12.950m. 1 estádio = 185m) a oeste da cidade, cercada por uma densa floresta na sua parte norte e leste, por um precipício em sua parte oeste e paliçadas na parte sul. Sabia que não seria fácil como ir a um simpósio, mas precisava ser tão complicado? Ao andar pela floresta vi muitas cabras e alguns lobos. Por mais que a região fosse encoberta, correria o risco de chamar atenção com o barulho dos animais caso escolhesse ir por esse caminho. O precipício era impossível de escalar, mesmo sabendo executar com alguma maestria. Além disso, não poderia simplesmente entrar pela porta da frente. Após rondar a região, estudar o relevo e a fortaleza, montei um plano em minha mente. Ao retornar à fazenda procuro por Bulis.

– E então?- Preciso de um porco abatido, uma carroça e ânforas com kykeon (bebida psicotrópica à base de vinho, cevada, queijo de cabra e fungos).

Kykeon?

– Achas mesmo que vou simplesmente entrar num forte pela porta da frente e matar todos os guardas como se estivesse ceifando trigo?

– Olhe como fala misthios.

– Precisa me ajudar a te ajudar. Temos que tentar embriagar os guardas.

– Como irá fazê-los beber?

– Darei um jeito nisso. O porco preciso para até o fim da tarde.

– Porco, kykeon e uma carroça.Mas que merda você quer fazer?

– Ora! Trazer um baú cheio de dracmas é claro! Ha! ha! ha!

– Isso não é engraçado. Consigo a bebida e a carroça para depois do meio dia.

– Não tem problema, voltarei em breve.

– Aonde vai?

– Dar uma volta, não se preocupe, não é hoje que vou para o Hades.

Sempre que tiver dracmas em seu bolso é aconselhável ir à uma ταβέρνα (taberna – bar ou restaurante). São bons lugares para pescar alguma informação. Naquele momento precisava saber mais sobre meu contratante. Não havia muitas tabenas em Megáris, então resolvi ir na que eu costumava ir, a Akraion.

– Καλημέρα (Kalimera – Bom dia) meu senhor.Qual bom vinho você tem hoje?

– Bom dia misthios.Um prazer em revê-la. Suave ou forte?

– Olhe para minha cara Kadmos, o que acha?

– Está com cara de quem vai cair dura no chão se tomar alguma coisa se não comer nada.

– Tem razão. Tome, veja o que me consegue com dois dracmas.

– Deixe comigo.Tome, experimente esse, só ofereço para quem confio, vinho de Quios, dos finos, o melhor.

– Realmente, Quios sabe fazer bons vinhos. Deméter abençoou aquelas terras.

Enquanto almoçava minhas sardinhas com pão e azeitonas, escutava as conversas que pairavam no ar. Apenas assuntos vulgares iam e vinham, vez ou outra alguém demonstrava alguma preocupação com a expansão de Atenas pelos mares e a construção das muralhas que ligavam a cidade até o porto de Pireus .Isso me fez começar a entender melhor minha missão.Com Atenas dominando Megáris com alguma democracia fajuta, provavelmente aplicariam sanções sobre comércio à quaisquer pólis inimiga, o que enfraqueceria as ligações de Heliodóros com os lacedemônios. Só não esperariam que sanções foram aplicadas anos depois, mas contra a própria Megáris. Inocentes, não? Quando achei que minha refeição teria sido em vão, encontro alguma luz no momento em que fui pagar Kadmos.

– Uma coruja (alusão à moedas de dracmas cunhadas em Atenas). Eram difícil de vê-las, mas estão se tornando mais comuns. – Comentou o Kadmo

– Quer ver corujas? – Disse um homem bêbado ao meu lado. – Vá até o porto.Os homens de Heliodóros estavam procurando por dracmas atenienses. Trocando tartarugas (alusão à moedas de dracmas cunhadas em Egina) por corujas , quimeras (alusão à moedas de dracmas cunhadas em Abdera) por corujas, quantos bichos.

– Interessante. – Concluí.

Resolvi dar uma caminhada no porto para confirmar a informação. Ao fingir estar procurando aqueles que estavam trocando moedas de outras pólis por dracmas de Atenas, descubro que a informação obtida na taberna estava correta, mas que o homens já haviam partido dois dias antes. A descrição dos mesmos batiam com as dos homens de Heliodóros. Ao conferir minhas moedas, percebo que todas eram corujas.Mera coincidência ou um sinal da filha de Zeus, de glaucos olhos?Guardei essa informação para mais tarde e retornei à fazenda.

Chaire Bulis. Vejo que está com o porco e o kykeon. Vamos, me ajude a colocar as ânforas na carroça.

– Como uma bebida de merda e um porco morto vai te fazer conseguir saquear o tesouro?

– Ora, um mágico não revela seus truques, mas não se preocupe. Se o plano não funcionar, pelo menos tenho uma última refeição. Vamos, dê uma risada.

– Não sou pago para dar risada nem para fazer o seu serviço, agora suma daqui e volte quando tiver cumprido sua missão.

– Tudo bem, nem todo mundo nasceu para sorrir.

Ainda vestida como camponesa me dirigi ao forte com a carroça puxada por um boi. Quanta dificuldade, demorei mais que o dobro do tempo necessário para fazer o trajeto do que se estivesse com Bálios. Confesso que não resisti e quis provar um pouco da bebida, mas só de abrir a ânfora o cheiro me embrulhou o estômago. A besta do Bulis devia ter comprado o mais barato que tinha.Vez ou outra via alguma movimentação estranha nas matas ao redor do forte e cada vez mais as dracmas em meu bolso ficavam mais pesadas. Deixei o porco escondido no meio da mata a uns cinco estádios de distância ao portão sul do forte. Me dirigi então ao mesmo com a carroça dando chutes na roda quando de repente:

– Merda! Pelos deuses. Não tem ninguém aqui para me ajudar? Uma mulher sozinha com uma carroça quebrada no meio da estrada, você acha que não apareceria ninguém?

– O que aconteceu? – Disse um dos guardas que vieram me ajudar.

– A roda da minha carroça quebrou.

– Uma pena.- Disse um dos idiotas de forma sarcástica.

– Uma pena porque não foi contigo. E agora? Preciso realizar essa entrega.

– O que está levando?

Kykon, uma encomenda de um fazendeiro da região. Heliobóros, acho.

– Helioródos. Um grande μαλάκας (malaka – filho da puta). E esse seu sotaque. Do onde é?

– Elêusis meu senhor.Por favor, preciso de ajuda, meu marido irá ficar furioso comigo.

– Marido? Tem cara de escrava.

– Encoste a mão em mim e Diodóros cortará sua cabeça.

– Erga o tom de voz mais uma vez e eu cortarei a sua.

– Peço desculpas. Por favor, fiquem de olho na carroça, meu marido não deve estar longe. Me disse que iria à cidade e me encontraria aqui por perto. Preciso chamá-lo. Pelos deuses.

– Vamos levar a carga para dentro do forte. Quando voltar fale conosco.Que cara é essa? Acha que vamos beber essa bosta? Ou levamos para dentro ou você fica sem entrega e sem carroça.

– Tudo bem.Muito obrigada senhores. Em seguida, fingi ir em direção à cidade e voltei à fazenda para começar a me preparar. Consegui no máximo engolir um mingau e um queijo duro que teria que me sustentar até o amanhecer. Enquanto vestia minha couraça ouvi uma rápida conversa no cômodo ao lado.

– Ela já partiu? – Reconheci a voz de Bulis.

– Não sei. – Respondeu um dos guardas. – Não a vi desde que saiu com a carroça.

– Não importa, reúna os homens, vamos partir daqui a pouco.Certifique-se que todos não estejam com o emblema de Heliodóros.

Os pontos começaram a se ligar e tive uma epifania. Quando terminei de me vestir os soldados já haviam saído. Fiz uma oração a Zeus e fui buscar Bálios no estábulo. Começara a escurecer, mas felizmente era noite de lua cheia e a luz era o suficiente para me guiar. Como um raio cavalguei para próximo do forte. As cabras que antes estavam a berrar agora estavam todas juntas prontas para dormir, mas não muito distante uma alcateia rondava a região. Tudo dentro do planejado até então. Descobri o porco morto, o fatiei em alguns pedaços e joguei-os ao longo de uma trilha até próximo ao portão do forte. Nem precisei terminar para o plano começar a funcionar pois lobos começaram aparecer, uma boa distração para os guardas.

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