Geraneia 1/3

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“Se entro na Lacônia, vou arrasar e submeter Esparta” — Filipe II da Macedônia

“Se …” — Resposta espartana

Olá estrangeiro, seja bem vindo às minhas memórias. Hoje vou te contar sobre como consegui minha bela armadura dourada. Minha aventura começou numa tarde amena em Megáris, uma pólis ao oeste de Atenas e ao norte de Corínto.


Era época da octogésima olimpíada(460 a.C.). Pequena, porém esplêndida, sempre considerei Megáris um modelo de cidade. Apesar de não ser tão rica, não havia tanta desigualdade quanto em Tebas ou Atenas e a cidade esteticamente sempre estava bem arrumada.

Dois dias antes havia terminado um serviço fácil porém demorado, exterminar uma alcateia que ameaçava o rebanho de um aristocrata local e estava a passear pela cidade. Queria ir ao templo de Apolo para realizar uma oferenda como agradecimento ao trabalho concluído. Não é sempre que se consegue vinte dracmas por um trabalho desses.

A entrada sul da cidade é marcada pela ágora logo atrás de sua muralha onde os mercadores locais apresentam seus produtos. Impossível não se impressionar logo de cara com o mercador de cerâmica. Toda sorte de crateras, ânforas, lamparinas, alabastros e kylix, todas no estilo de figuras vermelhas. Ao lado, um mercador com os mais belos tecidos de todo o mundo. Para mim os tecidos persas são os mais bonitos, sempre os mais coloridos e cheios de detalhes, mas sempre achei que era um desperdício comprar um, pois nunca teria oportunidade de usá-lo. Além do mais seria uma heresia sujá-lo de sangue durante meu trabalho.

Ao caminhar pelo lado leste da cidade, todo encoberto por oliveiras e pinheiros podíamos ver o mercado de víveres, cheios de porcos, carneiros e aves. Ao lado fica o mercado de peles e fiquei contente que os lobos que havia matado não foram simplesmente descartados. Reconheci um dos animais pelo buraco que havia feito no dorso com minha lança. Mesmo nessa região mais suja da cidade as pessoas se preocupavam em manter a aparência de suas casas em bom estado, pintadas em ocre e branco.

Me dirigi até o ferreiro ao lado do portão leste para comprar algumas flechas e afiar minhas armas. Sarpédon já era conhecido meu, havia o ajudado uma vez e por isso me dava um desconto em seus serviços.

– Boa tarde Kassandra. O que conta de novo minha misthios preferida?

– Preferida? Por quê?

– Qualquer misthios que não me ameaça já considero como minha preferida.Como foi seu último trabalho?

– Está alí, veja. Tive que matar alguns lobos para um fazendeiro, acho que Neandros é seu nome.

– Pelos deuses, esses são grandes. Difíceis de matar?

– Não quando se usa estratégia. Os atraí numa armadilha com um pouco de carne de porco e matei um por um com minha lança. É por isso que estou aqui. Preciso trocar sua ponta, o último lobo conseguiu escapar e a quebrei quando a besta se esquivou e acertei um rochedo. Tive que matá-lo com algumas flechas e também acabei ficando com a aljava vazia.

– Oito dracmas.

– Oito dracmas? Anda bebendo durante o serviço? É quase metade do que recebi pelo trabalho. E nossa amizade, não significa nada?

– Amigos, amigos, negócios à parte misthios.

– Cinco dracmas

– Sete, senão não terei lucro algum.

– Seis e te dou essas presas, são daqueles lobos. Não foram fáceis de tirar e te servirão para um belo ornamento.

– Assim você me quebra, não consigo trocar dente lobo por um saco de trigo. Mas tudo bem. Pelo menos estão bem limpos. Precisa para quando?

– Quando consegue terminar?

– Amanhã à tarde.

– Tudo bem, e mais uma dracma para polir meus braceletes e minhas grevas

– Três !

– Duas !

– Fechado. Braceletes e grevas de bronze? Foi lutar com Odisseu em Tróia? Precisa trocá-las, couro ou ferro.

– Não tenho todo esse dinheiro.

– Está bem, se mudar de ideia, fale comigo. Para onde vai agora?

– Vou para o templo de Apolo, preciso realizar oferendas. Não quero problemas com os deuses.

– Se quiser, venha jantar em minha casa. Meu filho Lykos gosta de você e de suas histórias.

– Tudo bem. Vou ver se consigo.

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Ao deixar meu equipamento com Sarpédon me dirigi até o templo. Vários mercadores de oferendas rodeavam a região, facilitando a tarefa. Como sei o suor para conseguir cada dracma e estava com tempo livre, fui pesquisar a oferenda de melhor custo-benefício. Na στοά(stoa – Pórtico coberto para uso público) em frente ao templo, pude comprar um conjunto com um ramo de flores, um punhado de trigo e um pouco de vinho. Tão logo subi as escadas e me deparo com uma fila de fiéis também à espera de ter seu encontro a sós com o deus. O chão que circunda o templo estava colorido de pétalas de rosas e margaridas, abundantes na região. Chegando a minha vez vejo que muita fumaça saía da ναός(naos – Parte interna do templo, onde reside a estátua do deus) devido aos incensos de olíbano.

Nunca deixei de oferecer homenagens aos deuses em agradecimento por um trabalho bem concluído e mesmo acostumada com essas ocasiões meu coração sempre batia mais forte. Ao entrar no templo a imagem onipotente do deus me deu um nó na garganta. Como é belo! Mesmo com um véu é possível ver os menores detalhes da grande estátua de Apolo lutando contra Píton. Do tamanho de três homens, o deus seminu segura a serpente com sua mão esquerda enquanto guarda seu arco na aljava.

Após minhas orações voltei à ágora para comprar algo para levar até o jantar com a família de Sarpédon. Οξύγαλα(oxygala – iogurte) com mel e nozes, uma bela sobremesa. Ao chegar perto de sua casa, Lykos veio todo contente:

– Tia Kassandra! Tia Kassandra!

– Olá Lykos. Como vai? Como você está grande. Venha, me dê um abraço. Quantos anos você já tem?

– Nove.

– Se continuar assim vai ficar maior do que seu pai. Tome, leve isso para sua mater.

Se das artes bélicas sou aluna dileta, Melissa é a mesma para culinária. Sopa de trigo e ervilhas com queijo de cabra e γάρον (garon – Molho de peixe fermentado com especiarias).

– Agradeça todos os dias por ter Melissa como esposa, Sarpédon. Quem me dera poder desfrutrar de deliciosa refeição todos os dias.

– Obrigada Kassandra, mas é simples o que faço, não há nada de tão especial.

Phobos, Melissa. Quando se vive constantemente sem saber se vai ver o próximo amanhecer você aprende a desfrutar cada momento com mais atenção. O medo educa.

– Você precisa fincar os pés em algum lugar. Não se cansa dessa vida?

– Você se acostuma. Gosto de viajar e conhecer pessoas.

– Mas uma hora o corpo não responderá à mente e o que será de seu ofício?

– Pensarei quando este dia chegar.

– Tanta estratégia para resolver os problemas dos outros mas tão pouca para resolver os seus.

– Meus? Ha! ha! ha! Não. Não tenho muitos problemas. Não guardo tanto dinheiro em meus bolsos. Se tivesse uma fortuna teria carregá-la num cofre amarrado nas costas, como Quelone carrega sua casa. Não precisa se preocupar comigo. O que você tem é dúvida.

– Dúvida?

– Sobre como seria você no meu lugar. Sei que é difícil se pôr no lugar do outro, mas confie em mim, vivo bem do meu jeito.

– Tia Kassandra, é verdade que você é uma corajosa guerreira?

– Eu? Deveria ouvir Homero. Lá estão os verdadeiros guerreiros.

– Porquê não valoriza seu trabalho?

– Sarpédon, as pessoas vão até você pelo trabalho que você faz ou pelo trabalho que você diz fazer? Auto propaganda tem efeito contrário ao desejado, principalmente no meu trabalho. A virtude é silenciosa e deve ser atribuída por terceiros.

No momento em que comíamos a sobremesa alguém bate à porta.

– Boa noite Sarpédon. Soube que há uma misthios em sua casa.

– Quem é você?

– Ela está? Preciso falar com ela.

Nesse momento me virei para Melissa e com um olhar pedi para levar a criança para o quarto. Como estava sem meus equipamentos, escondi uma faca dentro na manga de meu vestido.

– Sou eu. O que quer?

– Acha mesmo que essa faca me assusta? Não precisa se preocupar, venho em nome de Heliodóros. Está procurando serviço?

– Estamos jantando. Posso conversar depois de comer.

– Tudo bem. Espero aqui fora.

Após o jantar fui ao encontro do estranho. Notoriamente era um hoplita, estava com sua panóplia (Armadura completa – elmo, escudo, grevas e couraça) bem polida.

– Quem é você? – Trabalho para Heliodóros, senhor de muitas terras por nessa região.

– O que ele quer? – Tome. – E me jogou uma bolsa com moedas. – O que? Dez dracmas. Por que?

– Parte do pagamento. – Pagamento do que? Não me lembro de ter aceitado algum serviço.

– Você irá. Há mais dracmas te esperando. Pegue o portão norte e ande por vinte estádios (3.700m. 1 estádio = 185m) até a fazenda com uma bandeira amarela hasteada. É a casa dele. Ele estará te esperando amanhã de manhã.

– E se eu não qui…

– Adeus.

Grosseiro, não? Mas confesso que foi inteligente. Dar dinheiro à força é uma boa forma de contratar alguém, não acham? Se fugisse com o dinheiro certamente me achariam. Não tive escolha então.

– Sarpédon, preciso de minhas coisas.

– Mas eu ainda não terminei o serviço. – O que falta?

– Polir e arrumar a ponta de sua lança.

– Me dê qualquer uma que tiver. Agora polimento é importante, vamos, te ajudo, preciso de armadura e grevas polidas.

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